Durante dois dias de programação, o evento em Comemoração ao Dia do Artesão, realizado pelo CRAB Sebrae e Sebrae NA, consolidou uma visão ampla e contemporânea sobre o setor: o artesanato brasileiro é expressão cultural, atividade econômica, patrimônio vivo, inteligência territorial e plataforma de futuro. Mais do que celebrar o dia do artesão, o encontro reuniu vozes de diferentes áreas para mostrar que o fazer manual ocupa hoje um lugar estratégico nas discussões sobre desenvolvimento, sustentabilidade, inovação, educação, consumo e reconhecimento de identidades brasileiras.
A programação articulou emoção, pesquisa, base estatística, cadeia produtiva, internacionalização, economia circular, educação e tecnologia. Entre os destaques estiveram a apresentação de estudos inéditos, o debate sobre o papel do artesanato na formação de crianças e jovens, o anúncio da nova edição do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato e o lançamento do novo portal online do CRAB, concebido para consolidar o centro como polo de inteligência do artesanato brasileiro.
Na abertura, o diretor de Desenvolvimento do Sebrae Rio, Sergio Malta, destacou que celebrar o Dia do Artesão é reconhecer histórias de vida, talentos e trajetórias construídas com trabalho manual, sensibilidade e coragem. O artesanato, afirmou, traduz uma das formas mais genuínas da cultura brasileira, nascida do território, da memória e das pessoas que transformam matéria-prima em expressão, renda e sustento. Já o gerente do CRAB, Marc Diaz, reforçou a necessidade de ampliar a leitura sobre o setor. “O artesanato brasileiro não vende apenas peças. Ele vende um país, uma cultura, seus biomas, seus territórios e seus modos de viver”, sintetizou. Em outra passagem, sublinhou o papel do CRAB nesse momento de virada: “A gente está juntando informações, estudos, experiências e atores para transformar o artesanato numa potência econômica cada vez mais visível, menos pulverizada e mais articulada.”
O primeiro dia foi marcado pela defesa do artesanato como linguagem de pertencimento, memória e reconhecimento. No painel de abertura, O Brasil que Mora nas Mãos, mediado por Karla Carbonera, a conversa reuniu Lufe Gomes, criador do Life by Lufe, e Durcelice Mascene, gestora nacional de artesanato do Sebrae. O debate partiu da ideia de que o artesanato não pode ser compreendido apenas como objeto: ele é uma forma de narrar o país, traduzir territórios e dar materialidade a histórias coletivas.
Durcelice ressaltou o papel do Sebrae e do CRAB na articulação de comunidades artesãs e na ampliação do espaço do artesanato no mercado, sem perder de vista o diálogo com novas gerações. Segundo ela, a missão das instituições é “organizar essas comunidades para que possam estar no mercado e trazer o olhar do novo, dessa nova geração”. Lufe, por sua vez, chamou atenção para a valorização crescente do artesanal dentro das casas brasileiras, associando esse movimento a uma reconexão com as origens, com o habitar e com a identidade que cada peça carrega. Ao aproximar artesanato, casa e memória, o painel ajudou a dar o tom de toda a programação: falar de artesanato é falar de cultura viva: “Quando um objeto demora para ser feito, ele não fala apenas de decoração, mas de uma busca e de um reencontro como brasileiro”, pontua.
À tarde, a apresentação do estudo Artesanato no Brasil trouxe uma das contribuições mais estruturantes do evento. Conduzida por Camila Flores e Marcos Lelis, da universidade Unisinos, com contextualização de Dorotéa Naddeo, mostrou que o setor começa a construir uma base científica capaz de orientar planejamento, gestão, formulação de políticas públicas e compreensão mais precisa de sua participação na economia.
Um dos grandes problemas históricos do campo, segundo a apresentação, está na circulação de números sem metodologia rastreável. A proposta do estudo é enfrentar essa fragilidade, criando critérios mais claros para identificar quem são os artesãos, quais são as atividades predominantes em cada território e como o artesanato se distribui entre dimensões econômicas, sociais e ambientais. Dorotéa afirma a importância dos dados ao defender que o setor precisa de parâmetros para entender sua realidade, definir metas e demonstrar sua relevância nas economias locais e nacional. Ela também pontuou uma distinção essencial: “Artesão é aquele que transforma matéria-prima em produto acabado, com forma, função e identidade cultural.”
Os primeiros números já mostram a força do setor. Segundo os dados apresentados por Marcos Lelis, mais de 1,3 milhão de pessoas atuavam em ocupações ligadas ao artesanato em 2024. O setor respondeu por 0,25% do PIB brasileiro em 2023, a renda média mensal do artesão foi estimada em R$ 1.668, 73% dos trabalhadores permanecem em ocupações não formalizadas, 60,7% são mulheres e a maior concentração regional está no Sudeste, com 43,3%. Mais do que estatísticas, esses indicadores reforçam a mensagem central do encontro: o artesanato é arte, emoção e identidade, mas também é economia, trabalho e transformação de vidas
Na sequência, a palestra de Carla Tennenbaum, cofundadora da Ideia Circular, trouxe a cartilha do ABC do Artesanato Circular para o centro da conversa. Ela destacou que o artesanato, por sua própria natureza, já dialoga com regeneração, reaproveitamento e uso consciente de recursos, mas também enfrenta desafios impostos pela lógica produtiva contemporânea, como desperdício e materiais de difícil recuperação.
O debate reforçou que pensar o futuro do setor exige não apenas preservar saberes, mas criar condições para que esses saberes operem em cadeias mais responsáveis. A cartilha se conectou com outras frentes do evento, como os debates sobre bioeconomia e os painéis que mostraram novas aplicações para resíduos e matérias-primas tradicionais.
Além da gestão de materiais, Carla reforçou que a economia circular é, acima de tudo, sobre pessoas. Ela defendeu que o artesanato circular deve encurtar as distâncias entre quem produz e quem consome, garantindo que o valor e o reconhecimento circulem de forma justa em todo o território. Para a designer, fortalecer esse ecossistema é uma forma de elevar o ofício artesanal para além de um passatempo, consolidando-o como um pilar da regeneração social.
O encerramento do primeiro dia foi marcado pelo lançamento da 6ª edição do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato, iniciativa que reconhece as 100 unidades produtivas mais competitivas do país. Mais do que premiar a excelência do produto, o selo considera gestão, inovação, acesso a mercado e capacidade de geração de valor para o artesão e seu território. Como novidade, esta edição apresentou o selo Revelação TOP 100, voltado a artesãos e unidades produtivas que, já em sua primeira participação, se destacam pela qualidade do trabalho.
O momento ganhou força com a participação de vencedores anteriores, como Augustto Ribeiro, do Vale do Jequitinhonha, e Rodney Paiva Ramos, da marca Cores da Mata Biojóias, do Acre. Em suas falas, os artesãos mostraram que o prêmio não se limita a uma dimensão simbólica: ele amplia visibilidade, fortalece autoestima profissional, abre mercados e reafirma o valor cultural do fazer artesanal.
Augusto relembrou como sua percepção artística evoluiu desde a infância: “Quando eu era criança, não fazia distinção entre pessoa e boneca; conseguia olhar para elas e sentir a mesma energia. Depois, fui entender que cada boneca carrega um pouquinho da nossa própria energia”, explica.
O segundo dia começou com um dos marcos institucionais mais importantes da programação: o lançamento do novo portal do CRAB. Ao apresentar a plataforma online, a coordenadora Natalia Lorenzetti contextualizou a trajetória recente do centro e explicou como ele vem se estruturando para atuar como polo de referência, inteligência e disseminação do conhecimento sobre o artesanato brasileiro. Segundo ela, uma das preocupações do Sebrae Nacional era justamente fazer com que conteúdos, experiências e aprendizados deixassem de ficar restritos a seus territórios de origem e passassem a circular de forma mais ampla pela rede. “A proposta foi organizada em quatro eixos principais: inteligência setorial, desenvolvimento de soluções, governança e comunicação”, resumiu.
Natalia destacou que o novo portal responde à necessidade de organizar e concentrar esse conhecimento em um ambiente vivo de consulta, formação e articulação. A plataforma reúne mapeamento interativo, pesquisas econômicas, perfil do consumidor, sustentabilidade, notícias, artigos, estudos e conteúdos audiovisuais. Também passa a abrigar dados mais confiáveis sobre o setor, em resposta ao fato de que bases estatísticas tradicionais não dão conta de representar toda a complexidade do ecossistema do artesanato. A coleta conduzida com apoio da UFMG busca ampliar essa base, registrando técnica, matéria-prima, categoria e tipo de produto.
Outro destaque foi a entrada do CRAB no Google Arts & Culture, tornando-se a primeira plataforma dedicada ao artesanato brasileiro nesse ambiente global. A iniciativa amplia a presença internacional do centro e permite tour virtual pelo prédio, navegação em exposições 3D e acesso ao acervo. Para Natália, trata-se de mais um passo na consolidação do CRAB como espaço de referência nacional. “A reformulação da plataforma responde à necessidade de criar um canal capaz de organizar, concentrar e disseminar esse conhecimento”, afirmou.
Na mediação desse bloco, Laura Landau, analista gestora da produção de conhecimento, reforçou a dimensão estratégica do portal como ferramenta de conexão entre os diversos atores do setor. Ao destacar o mapa interativo e a curadoria de conteúdos, apontou para a necessidade de tornar mais visível uma rede que já existe, mas muitas vezes permanece fragmentada.
Também na manhã do segundo dia, a palestra do diretor do IEMI, Marcelo Vilim Prado, trouxe os resultados da pesquisa sobre o comportamento do consumidor de artesanato no Brasil. Os números ajudam a desmontar imaginários antigos e mostrar um mercado mais concreto e ativo do que muitas vezes se supõe. O estudo ouviu 2.400 consumidores em todo o país e identificou que 66% dos compradores são mulheres, com idade média de 37 anos e renda média de seis salário mínimos. A maior concentração está entre pessoas de 25 a 44 anos, com forte presença das classes A/B eC. Em média, esse público compra artesanato quatro vezes por ano, adquire cerca de três peças por compra e gasta entre R$ 150 e R$ 160 por ocasião.
Entre os produtos mais procurados estão objetos de decoração, joias e bijuterias, acessórios de uso pessoal e lembranças/souvenirs. As principais motivações de compra são presentear, decorar a casa ou o escritório e valorizar a cultura e a identidade regional.
Ao comentar o estudo, Marcelo ressaltou que compreender o consumidor é essencial para fortalecer os pequenos empreendimentos criativos, aperfeiçoar a comunicação e ampliar valor percebido. Seu argumento dialogou diretamente com o conjunto do evento: valorizar o artesanato também passa por reconhecer quem compra, por que compra e de que forma esse consumo pode ser aprofundado.
No painel Do Festival ao Futuro – Parintins Criativo: experiência de economia circular no artesanato, a programação voltou o olhar para a Amazônia e para a potência criativa do Festival de Parintins. O debate mostrou que o festival vai muito além dos três dias de apresentação: ele é uma território de criação capaz de movimentar economia, fortalecer identidades e irradiar oportunidades para artesanato, moda, design e sustentabilidade.
O projeto Retalhos da Cultura, integrado ao Caprichoso Trilhas para o Futuro, apareceu como exemplo. A iniciativa ressignifica sobras de alegorias e materiais que iriam para descarte, transformando-os em novas criações de moda, renda e formação. O impacto foi apresentado em três frentes: ambiental, com redução de resíduos; cultural, com atualização da estética amazônica; e social, com inclusão socioprodutiva e novas oportunidades para mulheres e jovens. O painel reafirmou Parintins como território onde tradição, design, sustentabilidade e futuro caminham juntos.
À tarde, o painel Artesanato, Educação e Território em Diálogo colocou em evidência uma das frentes mais sensíveis e transformadoras do evento: o papel do artesanato como ferramenta pedagógica. A partir da participação do artesão Augustto Ribeiro, de Marcelo Fernandes, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, e da analista do CRAB Bruna Pelegrino, a conversa mostrou como o fazer artesanal pode aproximar crianças e jovens de territórios, histórias, sujeitos e formas de inteligência criativa que muitas vezes não aparecem no cotidiano escolar.
Augustto destacou que levar cultura, território e expressão artística para os processos de aprendizagem é também escrever a história de outro jeito. Para ele, quando uma criança percebe que alguém começou cedo, experimentou materiais e transformou isso em linguagem, ela reconhece em si mesma a possibilidade de criar. Já Marcelo Fernandes defendeu que a escola precisa se reconfigurar para acolher arte, imaginação, convivência e identidade como dimensões centrais da formação.
Ao encerrar o painel, Bruna Pelegrino apresentou o CRAB Educativo como um espaço que parte de uma premissa clara: antes do objeto, é preciso compreender o território, a história e os sujeitos que dão origem ao artesanato. Segundo ela, essa metodologia ajuda a construir diálogos mais profundos, especialmente com crianças e jovens. Bruna anunciou ainda o pré-lançamento da trilha formativa Artesanato Como Ferramenta Pedagógica, destinada a educadores e pensada para mostrar como o tema pode ser trabalhado em história, geografia, arte e literatura sem romper com o planejamento escolar.
Fechando a programação, o painel “Momento Artesão – Inovação e Tradição” mostrou como o artesanato pode dialogar com realidade aumentada, design, movelaria, arquitetura e educação. O encontro reuniu Joel Silva, Walter Júnior e Luis Guedes para discutir como o conhecimento artesanal pode ser base de inovação e não apenas memória do passado. Mediado por Laura Landau, o debate foi sintetizado por uma frase que se tornou uma das marcas do segundo dia: “Hoje a gente fala muito de inteligência artificial, mas eu gosto de trazer aqui outra ideia fundamental: a da inteligência artesanal.” E completou: “Existe uma inteligência profunda no fazer manual, no manejo da matéria-prima, na leitura do território e na adaptação ao clima, à água e ao tempo.”
Joel, artesão de Abaetetuba, trouxe um depoimento marcado por memória, trabalho e persistência. Ao lembrar que começou a fazer brinquedos com materiais disponíveis porque não tinha acesso a brinquedos comprados, reforçou que o artesanato nasce da vida, da necessidade e da criatividade cotidiana. Também levantou um questionamento central: por que um escultor de miriti, com domínio técnico e repertório cultural, ainda precisa vender sua obra por valores tão baixos? A pergunta sintetizou uma inquietação mais ampla sobre reconhecimento econômico e social do artesanato.
No campo da inovação, Walter Júnior apresentou o projeto Edutech Amazônia / Geômetra, que une tecnologia educacional e biocompensado de miriti para democratizar o acesso à realidade virtual em escolas públicas. A partir de sua parceria com Joel, o material artesanal passou a servir de base para óculos imersivos usados no ensino de geometria. Já o arquiteto Luis Guedes, da Guá Arquitetura, reforçou a importância de quebrar barreiras artificiais entre arte, artesanato e design, defendendo o conhecimento tradicional como inteligência legítima, sofisticada e essencial. A Guá tem pesquisa profunda que conecta o fazer tradicional com a inovação em diferentes e estruturas e montou exposições, em parceria com Joel, em São Paulo, Minas Gerais e Pará, todas com tecnologia utilizando miriti e artesanato.
Ao fim dos dois dias, o evento de Comemoração do Dia do Artesão deixou uma mensagem clara: o setor não pode mais ser lido apenas como tradição preservada ou objeto decorativo. Ele é cultura, sim, mas também economia, inteligência, tecnologia, educação, rede, pesquisa e futuro. Ao reunir emoção e método, território e dados, infância e inovação, o evento reafirmou o artesanato brasileiro como um dos campos mais ricos e estratégicos para pensar o país em toda a sua complexidade.
O projeto do CRAB teve início em 2008 e ganhou forma definitiva em 2016, com a conclusão de seu complexo arquitetônico, resultado da integração de três prédios históricos e tombados, situados na Praça Tiradentes, no Centro do Rio de Janeiro. Desde então, realiza atividades que reforçam sua missão de promover o artesanato nacional e contribuir para qualificar a imagem dos produtos feitos à mão no Brasil.
Em 2025, o CRAB expande sua atuação como Centro de Referência com seu Polo de Conhecimento, já em implantação. Trata-se de um projeto de inteligência que atende à rede de atores do artesanato. Estão sendo produzidos estudos aprofundados, mapeamentos do território brasileiro, artigos, seminários, palestras, e desenvolvidas soluções para a atividade artesanal do país.
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