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IV Seminário Mãos Que Promovem o Brasil debate a união entre artesanato e turismo

Evento no CRAB reuniu lideranças, especialistas e artesãos de várias regiões para mostrar como saberes ancestrais e o turismo de base comunitária ativam economias locais
Por Redação
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O IV Seminário Mãos Que Promovem o Brasil, realizado no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB) nos dias 7 e 8 de outubro de 2026, colocou em diálogo diferentes experiências entre o artesanato e o turismo. O seminário faz parte de uma série de encontros, iniciada em 2024. O evento contou com transmissão ao vivo das apresentações dos painéis e com a presença de vários atores que resgataram tradições e saberes ancestrais, transformando ideias em produtos que, efetivamente, ativam economias em diferentes territórios brasileiros.

Sergio Malta, diretor de Desenvolvimento do Sebrae Rio e membro do Comitê Nacional de Governança do CRAB, ao abrir o IV Seminário enfatizou:

“O artesanato é um poderoso vetor do desenvolvimento cultural de nosso país. Somos vários países dentro de um só país e o artesanato é a expressão mais autêntica dessa diversidade. Nós estamos deixando para as próximas gerações não somente um resgate do passado, mas uma força que potencializa a vida no presente”.

Bruno Reis, presidente da Embratur, destacou a importância das histórias e das diferentes culturas de quem cria os produtos comprados pelos turistas.

“Hoje os visitantes buscam mais do que autenticidade, eles buscam a experiência. Quando uma pessoa leva um objeto artesanal, ela leva um pedaço do Brasil. Promover o artesanato é também promover o turismo. Tradição e inovação devem encaminhar juntas.”

No primeiro dia de seminário tivemos a palestra de abertura – Do fio ao destino: como o artesanato transforma o turismo. Mirian Rocha, especialista em turismo, apresentou uma série de ações que transformou a vida dos moradores de Lajedo do Marinho, na Paraíba. O crochê foi o fio condutor das mudanças que incluíram a participação de muitos outros agentes criativos. Com o apoio do Sebrae, diferentes consultores realizaram capacitações que possibilitaram a transformação deste território num roteiro de turismo sustentável. E a prática do crochê formou uma associação ativa, hoje contando com 20 mulheres, que atua de forma potente no mercado de produtos culturais.

Mauricéia Maria de Oliveira e Carmem Lúcia de Lira Ferreira, da Associação das Crocheteiras do Lajedo do Marinho, da Paraíba, contaram sobre os desafios superados por esse grupo de mulheres.

“Toda a capacitação a gente abraçava como oportunidade. Toda a oportunidade a gente nunca deixou passar. O Sebrae foi o responsável pelo que nós somos até hoje”, disse Mauricéia.

Carmem Lúcia destacou o conceito principal do artesanato: o tempo.

“O crochê é muito bom de fazer, mas é demorado. A gente não é máquina. Crochê é ponto a ponto”.

Em seguida tivermos o Painel 1 – Turismo de Base Comunitária: artesãos estruturados para autonomia territorial, que foi mediado por Rozana Trilha, diretora-executiva do Instituto Zagaia, e contou com participações das empreendedoras e lideranças Natália Dias Viana e Neurilene Cruz.

Natália, moradora de uma comunidade tradicional no Rio Arapiuns, Pará, atua ativamente no fortalecimento do protagonismo comunitário amazônico através da Turiarte – cooperativa de turismo e artesanato da floresta. A cooperativa em 180 cooperadas, onde o protagonismo da gestão é de mulheres e jovens. Destaca que “Quem procura o turismo de base comunitária procura a troca com experiências de vida, a pessoa procura um banho de floresta.” Chamou a atenção que o TBC em seu território promove experiência imersiva e não passageira, onde o turista dorme na comunidade, vai retirar o material e aprende a técnica. Revelou como a percepção do ganho da comercialização dos produtos indígenas, realizados por pessoas de fora da comunidade, fez com que buscassem o protagonismo e criassem a cooperativa.

Neurilene Cruz, é artesã, chef de cozinha e liderança da etnia Kambeba, na comunidade Três Unidos. Quando se estabeleceu no território, ela e sua mãe usavam colares e roupas que eram admirados pelos turistas visitantes. Por conta da grande procura, passaram a fazer esses produtos para vender. O tempo passou e hoje o TBC da comunidade vai além do artesanato, expondo diversos aspectos de sua cultura para os visitantes e criando uma ecologia turística de transmissão da vida no território. Agradeceu ao CRAB a oportunidade por estar representando as mulheres de sua comunidade.

“A minha avó não teve essa oportunidade de nós mulheres indígenas. Nós fomos criadas para não estarmos aqui onde eu estou. Eu quebrei essa regra e agora eu estou aqui, onde eu quero estar.”

O último painel do primeiro dia, Turismo Pedagógico em Cunha (SP): a prática artesanal como atrativo turístico, foi mediado pela especialista em artesanato do CRAB Laura Landau, que destacou o caso Cunha como exemplo de uma experiência turística construída pela parceria entre a tradição ceramista, território e busca por aprendizado técnico. A troca de conhecimento entre as diferentes gerações dos ceramistas e o histórico das ações implementadas pelo Sebrae SP formaram um amplo painel. Debateu-se sobre esse caso de sucesso do artesanato associado ao turismo a partir de experiencias de aprofundamento pedagógico. A prática da cerâmica foi iniciada em 1975 por um pequeno grupo de mestres ceramistas japoneses hoje atrai um grande número de turistas, amadores e profissionais ceramistas, todos fascinados pela técnica milenar.

Giltaro Jardineiro, filho de fundadores do movimento ceramista, contou como a técnica faz parte de sua história familiar e como ela se articula com a de outros artistas. Destacou movimentos de fortalecimento como o festival de Cerâmica de Cunha que acontece todo ano, e traz ceramistas e entusiastas do Brasil para aprender e vivência a cerâmica de Cunha. Matheus Burger, pesquisador de materiais e processos, nos revelou como a cerâmica se tornou o caminho de seus estudos e possibilitou o seu ingresso na vida acadêmica.

Hoje se dedica à formação de uma nova geração de ceramistas. Marcio Augusto Araújo, Sebrae-SP relatou como foram realizados os trabalhos de governança, fortalecendo grupos e estruturando os arranjos produtivos locais. A capacitação dos empreendedores organizou roteiros para que os turistas pudessem vivenciar e aprender com a experiência da técnica da cerâmica.

No segundo dia do seminário Marc Diaz, gerente do CRAB, falou sobre a importância da natureza dos biomas e sua relação com a cultura do fazer artesanal. Abriu-se então o Painel 3 – Artesanato como impulsionador do turismo: o caso da Ilha do Ferro (AL). A museóloga Cármen Lucia Dantas (UFAL) mediou o painel destacando a originalidade da experiência do turismo na Ilha do Ferro. Nesta região o artesanato se consolidou e trouxe o turismo como consequência. Com isso ficaram ainda mais conhecidos, mas agora enfrentam certos desafios como impacto ambiental e gentrificação.

Marina Gatto, Sebrae-AL, destacou que o Sebrae tem atuado no sentido da conservação das identidades culturais do artesanato, ao mesmo tempo em que busca potencializar a economia dos territórios com o turismo.

“A mágica da Ilha é sua identidade”.

O artista artesão Yang da Paz, filho de mestre Petrônio, encanta com a sensibilidade de suas bailarinas de madeira. Para além da alma artística, o jovem também atua em atividades ambientalistas. Nascido em berço do Movimento dos Sem Terra, com seu pai, Yang assumiu a liderança na preocupação com o impacto da atividade artesã nas espécies de árvores nativas. Começou um projeto comunitário de produção e plantio de mudas de mulungu, para que o ciclo do artesanato não termine num futuro próximo. Sendo o artesanato o principal atrativo turístico da Ilha, é preciso pensar na sua sustentabilidade a longo prazo.

Já Maria Moreira e Jéssica de Oliveira trouxeram o olhar de quem movimenta o turismo diretamente no local com sua Agência Além dos Cânions. Pontuaram que a sustentabilidade com o meio ambiente e a manutenção das referências culturais da comunidade envolvem as preocupações de todos, tanto no que se refere ao território enquanto destino como no artesanato enquanto meio. E que o turista que chega na Ilha, normalmente é um turista diferenciado, que vem consciente de que ali os tempos das vivências são outros, o tratar com as pessoas e o território devem ser feitas com cuidado e respeito.

O painel Rota Mãos do Agreste foi mediado por Alice Meditsch, especialista do CRAB Sebrae, que apresentou a experiência do Agreste pernambucano como inspiração para outras regiões brasileiras na criação de rotas turísticas. Laudelino Ferreira, Sebrae-PE, iniciou o painel destacando as dificuldades para se estruturar uma rota capaz de incluir o interior, e a riqueza de seu artesanato, integrada aos roteiros dos turistas que, tradicionalmente, são primeiramente interessados nas praias do litoral.

Katieá Vitallino, relatou que, seu bisavô, mestre Vitalino, em 1959 começou a criar as suas peças figurativas em barro e generosamente passou a ensinar a sua arte a outras pessoas da região do Alto do Moura em Caruaru. Hoje cerca de mil artesão e sessenta mestres mantêm e renovam o repertório cultural dessas personagens. Ela destacou ainda a importância da colaboração do Sebrae na implementando do turismo de experiência: ‘Colocar a mão na massa’, aprender a modelar no barro, faz com que se perceba a dificuldade da técnica e o valor das peças.

Anderson de Araújo apresentou dados importantes sobre a relação entre o turismo e o artesanato na região do Parque Nacional do Catimbau, importante área para o ecoturismo, de cuja associação é o vice-presidente. Nessa região o artesanato em madeira nasce dos saberes tradicionais da comunidade, reunindo, na mesma experiência, cultura e natureza.

A sustentabilidade tem sido uma questão que vem sendo tratada junto aos parceiros como o Sebrae e a Universidade Federal de Pernambuco. Com as capacitações foi possível implementar uma experiência integrada a outros atrativos e os turistas passam mais tempo no território.

A antropóloga Helena Kussik (Artesol SP), abriu o painel 5 comentando a relação da palavra francesa ‘souvenir’ que significa lembrança, e verbo ‘recordar’, vem do latim, records que é relativo ao que retorna a passar pelo coração. Assim, Helena defende que quando repassamos pelo coração aquela experiência turística, através de uma peça do artesanal do território, agregamos valor para além do objeto em si.

Eduardo Barroso, consultor do Sebrae, apontou a necessidade de melhoria dos processos e da pesquisa de mercado de turismo, para que seja possível aumentar os valores dos produtos artesanais, sempre associados ao território.

Kris Barreto, Instituto Renato Imbroisi (SP), retornou a questão do afeto, provocada pela mediadora, ao declarar que “‘o artesanato é o lugar do encontro com pessoas”. Ao mesmo tempo em que concordou com a preocupação com o artesanato na geração de renda para essas pessoas. Ela destacou a importância do turismo de experiência e da aproximação entre culturas.

Maria Eugênia Cirne, da AZÚ (PE), relatou a sua experiência como arquiteta ao incluir os objetos artesanais em hotéis, reafirmando a identidade pernambucana. A potência simbólica desses produtos culturais imprime nos espaços genéricos da hotelaria a singularidade autoral do território. Ela afirma que faz parte do seu trabalho a sensibilização dos empresários.

“Eu acredito muito no artesanato como objetos que contam histórias e atraem interesse artístico nas pessoas.”

O painel teve a mediação de Tatiana Martins, coordenadora de Economia Criativa do Sebrae BA, que apresentou o tema da iconografia como estratégia para identificação de símbolos territoriais.

Em seguida, o pesquisador da Unicamp, Paulo Khul provocou reflexões ao oferecer uma abordagem teórica sobre o tema. A partir de uma pesquisa sobre as origens de significados da iconografia e como eles foram sendo incorporados no universo imagético da histórica da arte.

Rodrigo Lyra, consultor do Sebrae-BA, abordou a caraterística específica da iconografia como linguagem de acesso às narrativas das culturas pelos turistas. E destacou a capacidade comunicacional dos imaginários e o poder de sua circulação:

“a gente viaja não para conhecer coisas, mas para reconhecer coisas que conhecíamos por meio de imagens”

Alane Oliveira, diretora da COOPERAFIS (Cooperativa Regional de Artesãs Fibras do Sertão), completou o painel relatando a experiência prática de aplicação dos recursos iconográficos no desenvolvimento dos produtos. Ela relatou o histórico do grupo de mulheres, hoje com 80 artesãs, que cria artesanato com o sisal: “o sisal é o nosso ouro verde”. Muitos desafios foram vencidos, com o apoio do Sebrae, muitas capacitações foram necessárias para que o mercado as reconhecesse.

Foram dois dias de intensa troca entre gestores, artesãos, pesquisadores e profissionais do ecossistema criativo, presentes no auditório do CRAB ou com participação on-line, compartilhando práticas, repertórios, levantamentos iconográficos e diferentes experiências de transformação das identidades culturais em caminhos para o desenvolvimento de um turismo sustentável.

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